Alfredo Moreira Filho, engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Viçosa em 1971, desenvolveu ao longo de sua formação técnica e atuação profissional uma relação com o tempo que poucos ambientes de negócios conseguem cultivar: a capacidade de planejar com horizonte de meses e anos sem perder de vista o que precisa ser feito hoje.
Por que agricultura exige pensar diferente do que o mercado exige?
Um ciclo agrícola não se adapta ao calendário financeiro de uma empresa. A semente plantada em março não produz resultado em abril porque o trimestre acabou. A colheita acontece quando o ciclo biológico está completo, não quando o gestor precisa apresentar números para a diretoria. Assim, trabalhar com essa realidade por anos muda profundamente a forma como um profissional percebe tempo e resultado.
Em ambientes corporativos, a pressão por resultados de curto prazo é tão intensa que decisões com retorno em dois ou três anos frequentemente perdem para decisões com retorno em dois ou três meses, mesmo quando a análise de longo prazo aponta claramente para a melhor opção. Com isso, o agrônomo formado em campo raramente cai nessa armadilha, porque aprendeu que cortar o processo antes de completar o ciclo geralmente destrói o resultado.
O que significa planejar com horizonte real na prática?
Planejar com horizonte real não significa ignorar o curto prazo. Significa entender que decisões de curto prazo têm consequências que só se manifestam no médio e longo prazo, e que ignorar essas consequências por pressão de resultado imediato cria problemas maiores do que os que resolveu no trimestre.
Alfredo Moreira Filho, ao migrar da engenharia agronômica para a gestão empresarial, carregou esse tipo de perspectiva para contextos em que ela é escassa. A mesma lógica que diz que não se colhe antes de o ciclo estar completo se aplica a projetos de reestruturação organizacional, a programas de desenvolvimento de equipe e a qualquer investimento cujo retorno dependa de tempo e consistência para se materializar.
Por que o pensamento de longo prazo é raro em ambientes corporativos?
A estrutura de incentivos da maioria das organizações recompensa resultado de curto prazo e penaliza investimento de longo prazo que compromete resultado imediato. Gestores são avaliados por trimestres, não por décadas, e aprendem rapidamente a priorizar o que vai aparecer na próxima reunião de resultados em vez do que vai importar nos próximos cinco anos.

Profissionais com formação agronômica que migram para a gestão trazem uma resistência natural a essa armadilha, porque foram treinados em um ambiente onde cortar o ciclo antes do tempo simplesmente não produz resultado, independentemente de qualquer pressão externa para que produza. Dado isso, o ciclo biológico não negocia com o calendário financeiro.
Como o pensamento agrônomo se aplica à gestão de negócios?
Projetos de consultoria de gestão que trabalham com mudança organizacional real costumam exigir pelo menos dois a três anos para produzir resultados sustentáveis. Organizações que esperam retorno em seis meses frequentemente interrompem o processo antes de completar o ciclo necessário e concluem que a intervenção não funcionou, quando, na verdade, foi interrompida antes de estar completa.
Alfredo Moreira Filho, ao conduzir projetos pelo Grupo Valore+, aplica uma perspectiva de tempo formada tanto pela gestão empresarial quanto pela formação agronômica: resultados reais têm ciclos que precisam ser respeitados, e comprimir esses ciclos por pressão de curto prazo raramente produz o que se esperava deles.
O que gestores sem formação técnica poderiam aprender com agrônomos?
A principal lição que a agronomia oferece para qualquer gestor é que processos complexos têm tempo próprio e não respondem bem à aceleração artificial. Tentar fazer uma planta crescer mais rápido regando em excesso não acelera o crescimento; frequentemente o compromete. O mesmo princípio se aplica a equipes, a projetos de mudança e a qualquer processo organizacional que dependa de tempo para se consolidar de verdade.
Plantar, cuidar e colher no momento certo é uma sequência que parece óbvia na agricultura e revolucionária na gestão, não porque a lógica seja diferente, mas porque a pressão por resultado imediato é tão forte nos ambientes corporativos que tornou essa sequência simples difícil de seguir na prática. Alfredo Moreira Filho carrega essa perspectiva de forma natural, porque a aprendeu em campo antes de aprendê-la em sala de aula.