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Influenciadores estão virando investidores: nova tendência pode mudar como criadores ganham dinheiro na internet

Alberto Marvelli
Alberto Marvelli Publicado em agosto 28, 2026 9 Min de leitura
Influenciadores estão virando investidores: nova tendência pode mudar como criadores ganham dinheiro na internet
Influenciadores estão virando investidores: nova tendência pode mudar como criadores ganham dinheiro na internet

Criadores começam a trocar campanhas pontuais por participação em empresas, transformando audiência em ativo para negócios digitais.

A creator economy está entrando em uma fase em que ter milhões de seguidores pode representar muito mais do que vender publicidade. Nos últimos dias, novos movimentos no mercado reforçaram uma tendência que já começa a ganhar espaço: influenciadores estão usando audiência, reputação e conhecimento de comunidade para investir diretamente em empresas. Um dos exemplos mais recentes envolve a cantora e influenciadora Iggy Azalea, que anunciou em 28 de agosto um investimento na SHIFT, empresa de infraestrutura de inteligência artificial por trás da plataforma de monetização Fanvue, além de integrar seu conselho consultivo de criadores. (Net Influencer)

O movimento acompanha uma transformação mais ampla no mercado. Em vez de simplesmente publicar um anúncio e receber um cachê, alguns criadores estão buscando participação econômica nos negócios que ajudam a promover. A dúvida que surge para quem trabalha com Instagram, YouTube, TikTok ou outras plataformas é direta: será que o futuro da creator economy está em transformar influência em participação societária? Para os criadores brasileiros, essa mudança pode abrir oportunidades, mas também exige uma visão muito mais profissional sobre dinheiro, contratos, riscos e construção de audiência.

Por que influenciadores estão deixando de depender apenas de publicidade

Durante anos, o modelo mais conhecido da creator economy foi relativamente simples: o influenciador construía audiência, uma marca contratava sua exposição e o criador recebia por publicação, vídeo, presença em evento ou campanha. Esse formato continua importante, mas o mercado está começando a explorar uma relação mais profunda entre criadores e empresas. A participação acionária ou o investimento direto permite que o influenciador tenha potencial de retorno caso o negócio cresça, em vez de limitar sua remuneração ao valor combinado por uma campanha específica. A tendência foi destacada recentemente pela Vogue, que apontou o avanço do chamado modelo de “influencer-investor”, no qual criadores passam a ter participação financeira nos negócios que ajudam a desenvolver e divulgar. (Vogue)

Para entender por que isso chama tanta atenção, basta observar a lógica econômica por trás da influência digital. Um criador não entrega somente espaço publicitário: ele possui uma comunidade, conhece hábitos de consumo, identifica tendências e consegue testar rapidamente a reação do público a produtos e ideias. Quando essa capacidade é combinada com participação em uma empresa, o influenciador passa a ter incentivo para contribuir durante um período maior. Em vez de perguntar apenas quanto uma campanha custa, o mercado começa a discutir quanto valor um criador pode ajudar a construir. Isso aproxima influenciadores de funções tradicionalmente ocupadas por investidores, consultores, executivos e parceiros estratégicos.

O fenômeno também aparece em outros segmentos da creator economy. Nesta semana, a startup Levanta anunciou uma rodada de US$ 22 milhões para ampliar sua infraestrutura de comércio social e marketing de afiliados, conectando mais de 90 mil influenciadores a vendedores e plataformas de comércio eletrônico. A empresa trabalha com ferramentas para rastrear desempenho, pagamentos de criadores e campanhas baseadas em comissão, mostrando que o mercado está buscando formas de transformar influência em vendas mensuráveis, e não apenas em alcance. (Business Insider)

O que muda para quem cria conteúdo no Brasil

Para um influenciador brasileiro, a principal lição não é que todo criador deveria começar a investir em startups. O ponto mais importante é perceber que uma audiência pode ter diferentes formas de valor econômico. Um perfil com seguidores fiéis pode gerar receita por publicidade, afiliados, produtos próprios, assinaturas, eventos, licenciamento, cursos, comunidades e, em determinadas situações, participação em empresas. Quanto mais diversificada for essa estrutura, menor tende a ser a dependência de uma única plataforma ou de campanhas publicitárias ocasionais.

Essa mudança também pode alterar a maneira como criadores apresentam seus resultados para marcas e investidores. Número de seguidores continua sendo uma referência, mas deixa de ser suficiente para demonstrar influência comercial. Taxa de engajamento, retenção, conversão, perfil demográfico da audiência, capacidade de gerar vendas e confiança da comunidade podem ser muito mais relevantes para determinar o valor de uma parceria. A evolução do mercado mostra, portanto, que o influenciador profissional precisa compreender cada vez mais de negócios, análise de dados e propriedade intelectual, além de dominar produção de conteúdo e redes sociais.

Existe ainda uma oportunidade especialmente interessante para micro e médios criadores. Nem sempre uma empresa precisa de uma celebridade digital para crescer; em muitos mercados, comunidades menores e altamente especializadas podem ter uma relação mais forte com determinados produtos. Um influenciador de tecnologia, finanças, beleza, gastronomia, games ou empreendedorismo pode conhecer profundamente as necessidades de um público específico e contribuir para desenvolvimento de produtos de maneira que uma campanha tradicional dificilmente conseguiria. A tendência pode favorecer criadores capazes de provar influência real, mesmo sem milhões de seguidores.

Investir em uma empresa pode ser melhor que fechar uma campanha?

A resposta depende do negócio e do contrato. Receber um cachê oferece previsibilidade: o criador sabe quanto receberá pela entrega acordada, enquanto uma participação societária pode se tornar muito valiosa, permanecer estagnada ou até perder valor. A própria análise sobre a ascensão dos influenciadores-investidores alerta que participações em empresas privadas podem ter baixa liquidez e exigem avaliação cuidadosa da saúde financeira, do modelo de negócio e da capacidade real de o influenciador contribuir para o crescimento da companhia. (Vogue)

Por isso, a nova tendência não significa que publicidade tradicional perdeu importância. Na realidade, os dois modelos podem coexistir, criando uma espécie de escada profissional para o criador: primeiro, campanhas comerciais; depois, afiliados e produtos próprios; posteriormente, consultoria, desenvolvimento de produtos ou participação em negócios. O influenciador que chega a esse estágio deixa de ser visto somente como uma mídia e passa a funcionar como parceiro estratégico. Essa mudança pode ser particularmente relevante em empresas digitais, startups e marcas construídas diretamente em torno de comunidades online.

Também existem riscos de reputação. Se um influenciador possuir participação financeira em uma empresa que recomenda aos seguidores, a transparência sobre essa relação se torna essencial para preservar a confiança da audiência. O público precisa saber quando existe um interesse econômico por trás da recomendação, especialmente em setores nos quais uma decisão de compra pode envolver valores elevados. Quanto mais próxima a relação entre criador e negócio, maior será a necessidade de contratos claros, divulgação adequada e avaliação profissional antes de qualquer investimento.

Para marcas, a tendência também muda a pergunta feita ao mercado de influência. Em vez de simplesmente contratar alguém para divulgar um produto durante algumas semanas, empresas podem começar a procurar criadores capazes de participar de decisões de produto, posicionamento, comunidade e crescimento. Essa aproximação já aparece em discussões recentes sobre o papel dos criadores, que passaram a ser tratados por algumas marcas como parceiros estratégicos e não apenas como ferramentas de divulgação. (Vogue)

O próximo estágio da creator economy pode, portanto, ser menos sobre quem consegue acumular mais seguidores e mais sobre quem consegue transformar atenção em negócios sustentáveis. Para influenciadores brasileiros, isso significa enxergar a própria audiência como um ativo que precisa ser protegido, desenvolvido e diversificado. Nos próximos anos, devem ganhar espaço os criadores capazes de combinar conteúdo, comunidade, dados, comércio e empreendedorismo. A fronteira entre influenciador, empresário, investidor e fundador tende a ficar cada vez mais difícil de separar, e quem construir uma relação sólida com sua audiência poderá encontrar novas formas de ganhar dinheiro mesmo quando o algoritmo ou uma campanha específica mudar.

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