Emagrecer costuma ser apresentado como uma questão de disciplina. Quem consegue perder peso recebe elogios pela força de vontade. Quem não consegue, muitas vezes, acaba sendo visto como alguém que “não se esforçou o suficiente”. Essa forma de enxergar o problema está presente nas redes sociais, em conversas do dia a dia e, por muito tempo, também influenciou parte das discussões sobre obesidade. No entanto, a ciência vem mostrando que essa visão é simplista e deixa de lado fatores fundamentais que moldam o comportamento alimentar.
Lucas Peralles, nutricionista esportivo, fundador do Método LP e referência em nutrição esportiva em São Paulo, explica que compreender a alimentação exige olhar além do prato. Hoje, sabe-se que decisões relacionadas à comida são influenciadas por emoções, rotina, ambiente, experiências de vida, pressão social e diversos mecanismos biológicos. Estudos mostram que até profissionais da área da nutrição enfrentam dificuldades para manter hábitos saudáveis e também convivem com efeito sanfona, frustração e pressão estética, evidenciando que conhecimento técnico, sozinho, não é suficiente para transformar comportamento.
Saber o que fazer significa conseguir fazer?
Vivemos uma época em que informações sobre alimentação nunca estiveram tão acessíveis. Em poucos minutos é possível encontrar milhares de vídeos, cardápios e orientações sobre emagrecimento. Ainda assim, as taxas de obesidade continuam crescendo em diferentes países. Esse paradoxo revela uma questão importante: conhecer o caminho não significa conseguir percorrê-lo.
O estudo evidencia justamente essa realidade ao mostrar que até nutricionistas, profissionais que dedicaram anos ao estudo da alimentação, recorreram a dietas da moda, medicamentos e diferentes estratégias de emagrecimento sem obter resultados sustentáveis. Isso demonstra que o comportamento alimentar é muito mais complexo do que simplesmente aplicar o conhecimento adquirido na faculdade ou seguir regras alimentares.
Por que culpar as pessoas pode dificultar ainda mais a mudança?
Quando o emagrecimento é tratado apenas como uma questão de esforço individual, muitas pessoas passam a carregar um sentimento constante de culpa. Cada dificuldade é interpretada como fracasso pessoal, enquanto fatores como estresse, privação de sono, rotina intensa, ambiente alimentar e aspectos emocionais acabam sendo ignorados. Esse ciclo costuma aumentar a ansiedade e favorecer justamente os comportamentos que dificultam uma relação equilibrada com a comida.
A pesquisa mostra que o estigma relacionado ao excesso de peso produz impactos profundos na autoestima, na vida social e até na atuação profissional. As nutricionistas entrevistadas relataram preconceito, exclusão e sofrimento por não corresponderem ao padrão esperado da profissão, reforçando que a obesidade não pode ser compreendida apenas como uma consequência das escolhas individuais. Ela também envolve fatores culturais, sociais e psicológicos que precisam ser considerados durante qualquer processo de cuidado.
O comportamento alimentar começa muito antes da refeição?
É comum imaginar que as escolhas alimentares acontecem apenas diante do prato. Entretanto, elas começam muito antes. O nível de estresse, a qualidade do sono, o ambiente de trabalho, a rotina familiar, a disponibilidade de tempo e até experiências vividas desde a infância influenciam a forma como cada pessoa se relaciona com a comida. Por isso, duas pessoas expostas ao mesmo plano alimentar podem apresentar resultados completamente diferentes.

Ao analisar esse cenário, Lucas Peralles observa que mudar hábitos exige compreender essas influências antes de tentar modificar o cardápio. Foi justamente a partir dessa visão que surgiu o Método LP, desenvolvido na Clínica Peralles. Em vez de concentrar esforços apenas na elaboração de uma dieta, a metodologia busca identificar os fatores que dificultam a adesão alimentar e construir autonomia para que escolhas saudáveis possam ser mantidas mesmo diante dos desafios da rotina. Afinal, o maior obstáculo normalmente não é saber o que comer, mas conseguir repetir boas escolhas de forma consistente.
O futuro do emagrecimento está na dieta ou na compreensão do comportamento?
Nos últimos anos, a própria ciência da nutrição passou por uma transformação importante. Se antes grande parte das estratégias estava centrada apenas em restrições alimentares, hoje cresce o entendimento de que mudanças sustentáveis dependem da integração entre alimentação, comportamento, saúde mental, atividade física e contexto de vida. O foco deixa de ser apenas perder peso rapidamente e passa a construir hábitos capazes de permanecer por muitos anos.
Na avaliação de Lucas Peralles, essa mudança representa um avanço importante para quem busca emagrecimento com saúde. Quando o cuidado deixa de culpar o indivíduo e passa a compreender sua realidade, aumenta também a possibilidade de criar estratégias realmente compatíveis com o cotidiano. Em vez de lutar contra a alimentação, a pessoa aprende a desenvolver uma relação mais consciente, equilibrada e sustentável com a comida.
Entender o comportamento pode ser mais importante do que procurar a dieta perfeita
Durante décadas, o emagrecimento foi tratado como um problema que poderia ser resolvido apenas com mais informação ou mais disciplina. Hoje, as evidências mostram que essa visão é limitada. Alimentação envolve emoções, cultura, rotina, ambiente e inúmeros fatores que influenciam nossas escolhas diariamente.
Logo, Lucas Peralles reforça que compreender esses mecanismos não significa retirar a responsabilidade individual, mas reconhecer que mudanças duradouras acontecem quando conhecimento e comportamento caminham juntos. Quando o foco deixa de ser apenas a culpa e passa a ser a construção de hábitos possíveis, o emagrecimento deixa de ser uma sequência de tentativas frustradas e passa a se transformar em um processo consistente de cuidado com a saúde.