Ferramentas automatizadas buscam, selecionam e até conversam com criadores de conteúdo, mudando a rotina do marketing de influência.
O marketing de influência está incorporando uma nova camada de automação: agentes de inteligência artificial capazes de encontrar, abordar e negociar diretamente com influenciadores, tarefas que até pouco tempo dependiam exclusivamente de equipes humanas. A plataforma Grin lançou recentemente a Gia, sigla para Grin Intelligent Assistant, um agente que analisa milhões de perfis de criadores para identificar parceiros compatíveis com os objetivos de cada campanha. Dias depois, a agência Stagwell apresentou sua própria ferramenta de busca por IA com finalidade semelhante. O movimento reflete uma tendência maior no setor: cerca de 80% das empresas devem usar algum tipo de inteligência artificial generativa em suas ações de marketing até 2026, segundo dados citados pela Mundo do Marketing, o que inclui cada vez mais a gestão de relações com influenciadores digitais.
Como os agentes de IA estão mudando a rotina das agências
Segundo reportagem do Meio & Mensagem, a Grin testou a Gia com cerca de cem marcas antes de expandir o acesso à ferramenta. Em um dos casos relatados, uma marca de joias usou o sistema para localizar vinte influenciadores de moda em Nova York dentro de critérios bem específicos: faixa etária do público, frequência de postagens sobre estilo e ausência de contato prévio com a marca. A Gia encontrou 150 combinações relevantes enquanto a equipe de marketing da empresa se dedicava a outra campanha em paralelo, segundo relato da head de marketing da Grin, Olivia McNaughten. Outra iniciativa semelhante partiu da startup Tano, que lançou o agente Charlie, capaz de conversar diretamente com influenciadores para tratar de descoberta de criadores, abordagem inicial e acompanhamento de campanhas, sempre se identificando como inteligência artificial nas mensagens trocadas.
A automação desse processo resolve um problema prático apontado por profissionais do setor: a rotina de buscar e negociar com criadores costuma consumir bastante tempo e depende de planilhas ou de empresas terceirizadas especializadas nesse tipo de intermediação. Com os agentes de IA, marcas conseguem interagir com um número maior de criadores simultaneamente, reduzindo o tempo gasto em etapas repetitivas da negociação. Por outro lado, especialistas ouvidos pelo Meio & Mensagem levantam preocupações sobre como os influenciadores vão se adaptar a negociar com uma inteligência artificial no lugar de um profissional humano, além do risco de que empresas reduzam suas equipes de marketing para cortar custos, transferindo parte da função de relacionamento para as máquinas.
Influenciadores virtuais ganham espaço ao lado dos criadores humanos
Além dos agentes que automatizam negociações, outra frente da inteligência artificial já consolidada no mercado brasileiro são os próprios influenciadores virtuais. A Lu, personagem criada pelo Magazine Luiza, é um dos exemplos mais conhecidos: com 32 milhões de seguidores, a influenciadora passou a atuar como vendedora automatizada no WhatsApp, com taxa de conversão três vezes maior do que a registrada em outros canais da empresa, segundo reportagem da Exame citada pela HubSpot Brasil. O caso mostra como marcas brasileiras já tratam personagens gerados por IA não apenas como estratégia de mídia, mas como canal direto de vendas integrado a outras ferramentas digitais.
Pesquisas do setor ajudam a explicar por que esse tipo de investimento cresce. Um levantamento da Sprout Social, citado pela Mundo do Marketing, mostrou que 37% dos consumidores entrevistados disseram estar mais interessados em uma marca que utiliza influenciadores de inteligência artificial, número que sobe para 46% entre a geração Z. Mais de um quarto dos entrevistados afirmou não conseguir distinguir entre influenciadores humanos e virtuais nas redes sociais. Entre as vantagens apontadas por especialistas em marketing de influência estão o controle total sobre a mensagem da marca, a possibilidade de manter campanhas ativas 24 horas por dia e a ausência de negociações de cachê ou problemas de disponibilidade, características que dificilmente se replicam com criadores humanos.
A combinação entre agentes de IA que automatizam negociações e influenciadores virtuais que interagem diretamente com o público sinaliza uma reorganização mais ampla do marketing de influência no Brasil. Para agências e profissionais que atuam no setor, o desafio passa a ser encontrar o equilíbrio entre a eficiência trazida pela automação e a autenticidade que ainda sustenta a relação entre criadores humanos e suas audiências. À medida que mais marcas adotam essas ferramentas, cresce também a necessidade de transparência sobre quando um conteúdo foi gerado ou mediado por inteligência artificial, ponto que deve ganhar ainda mais atenção regulatória nos próximos meses.
Fontes consultadas: