Para mulheres classificadas como alto risco de câncer de mama, a ressonância magnética costuma ser a recomendação padrão como exame complementar à mamografia, apesar do custo elevado, da demora do exame e da dificuldade de acesso em boa parte do Brasil. O médico radiologista Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues acompanha de perto uma alternativa que vem ganhando espaço na literatura científica internacional nos últimos anos: a mamografia com contraste, um exame que combina a estrutura já conhecida da mamografia tradicional com a injeção de um contraste iodado, capaz de revelar áreas de maior atividade vascular associadas a tumores.
Estudos recentes comparando diretamente as duas técnicas mostram sensibilidade muito próxima entre elas, com números na casa dos 96% a 97% para detecção de lesões, sem diferença estatisticamente relevante entre o exame com contraste e a ressonância magnética tradicional. Diante de uma tecnologia bem mais barata e rápida do que a ressonância, mas com desempenho comparável em diversos estudos, entender como ela funciona e em que estágio de validação científica se encontra ajuda a explicar por que tantos centros de radiologia ao redor do mundo têm investido nessa técnica.
Como funciona, na prática, a mamografia com contraste?
O exame segue a mesma lógica física da mamografia convencional, com compressão da mama e uso de raios X, mas acrescenta a injeção intravenosa de um contraste à base de iodo, o mesmo tipo utilizado em exames de tomografia computadorizada. Como tumores costumam ter maior irrigação sanguínea do que o tecido normal ao redor, essas áreas absorvem mais contraste e aparecem destacadas nas imagens processadas por um software específico, revelando padrões de realce que passariam despercebidos em uma mamografia convencional sem contraste.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, essa capacidade de mostrar informação funcional, e não apenas estrutural, é o que aproxima o exame da ressonância magnética, tradicionalmente reconhecida por sua sensibilidade elevada justamente por captar esse tipo de atividade vascular. Para ele, a grande vantagem prática está no tempo de realização, geralmente inferior a dez minutos, contra até quarenta minutos de uma ressonância magnética completa.
O que a evidência científica já mostra sobre o desempenho dessa técnica?
Uma revisão sistemática reunindo diversos estudos internacionais encontrou sensibilidade de 97% para a mamografia com contraste e 96% para a ressonância magnética, sem diferença estatística relevante entre as duas técnicas na detecção de lesões mamárias. Um estudo randomizado publicado em 2024 também mostrou que, em mulheres reconvocadas após um rastreamento tradicional, o exame com contraste identificou mais lesões ocultas do que os métodos convencionais de investigação complementar, com boa eficiência de recursos.

Nesse cenário, o Dr. Vinicius Rodrigues considera esses resultados encorajadores, porém eles ainda se enquadram principalmente no âmbito da pesquisa diagnóstica, que ocorre quando há suspeita de alguma anomalia. Ele pondera que grandes estudos randomizados testando a técnica diretamente como ferramenta de rastreamento populacional, e não apenas de investigação complementar, ainda estão em andamento em diferentes países, com resultados esperados para os próximos anos.
Por que essa técnica ainda não substitui a ressonância magnética no rastreamento de rotina?
Apesar dos resultados promissores, a mamografia com contraste ainda carece de estudos de longo prazo voltados especificamente para uso em rastreamento populacional de mulheres assintomáticas de alto risco, e não apenas para investigação de casos já suspeitos. Grandes estudos, como o britânico BRAID e o americano CMIST, com milhares de participantes, foram desenhados justamente para preencher essa lacuna, comparando a técnica diretamente com a ressonância magnética em contexto de rastreamento real.
Para o ex-secretário de Saúde, Dr. Vinicius Rodrigues, essa cautela científica é saudável e necessária antes de qualquer mudança ampla de protocolo, especialmente pensando em incorporação ao sistema público de saúde. Ele reforça que tecnologia promissora não é sinônimo de tecnologia pronta para substituir o padrão já validado, e que órgãos reguladores e sociedades médicas devem aguardar os resultados definitivos desses grandes estudos antes de qualquer recomendação oficial de mudança.
Qual pode ser o papel dessa tecnologia no futuro do rastreamento no Brasil?
Se os resultados dos grandes estudos em andamento confirmarem o desempenho já observado em pesquisas menores, a mamografia com contraste pode se tornar uma alternativa mais acessível à ressonância magnética para mulheres de risco intermediário a alto, especialmente em regiões onde a ressonância magnética é escassa ou tem fila de espera longa. Isso representaria um ganho relevante de equidade, já que o exame utiliza equipamento de mamografia já presente em boa parte dos serviços de imagem do país, ao contrário da ressonância, que exige infraestrutura muito mais cara e especializada.
O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues vê nessa tecnologia um caminho concreto para ampliar o acesso a exames complementares de qualidade sem depender exclusivamente da ressonância magnética, desde que a validação científica avance como esperado nos próximos anos. Para ele, essa é uma das inovações em diagnóstico por imagem mais promissoras para reduzir, na prática, a distância entre o que a ciência recomenda e o que os serviços de saúde brasileiros conseguem oferecer.
A mamografia com contraste ilustra bem como a inovação em radiologia nem sempre significa inventar algo totalmente novo, mas encontrar formas mais eficientes de extrair informação adicional de uma tecnologia já consolidada e amplamente disponível. Se a promessa se confirmar nos grandes estudos em andamento, o impacto sobre o acesso ao diagnóstico complementar de qualidade pode ser significativo, especialmente fora dos grandes centros urbanos.