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Brasil

Anabolizantes nas Redes Sociais: Quando o Espetáculo do Corpo Esconde os Riscos Reais à Saúde

Alberto Marvelli
Alberto Marvelli Publicado em junho 3, 2026 6 Min de leitura
Anabolizantes nas Redes Sociais: Quando o Espetáculo do Corpo Esconde os Riscos Reais à Saúde
Anabolizantes nas Redes Sociais: Quando o Espetáculo do Corpo Esconde os Riscos Reais à Saúde

O uso de anabolizantes deixou os bastidores das academias e se tornou conteúdo de entretenimento nas redes sociais. Aplicações de hormônios filmadas diante das câmeras, relatos públicos sobre ciclos de uso e transformações físicas acompanhadas por milhões de seguidores jovens compõem um fenômeno que especialistas em medicina e saúde pública passaram a chamar de normalização do comportamento de risco. A morte do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, aos 22 anos, com laudo apontando doença cardíaca que pode ser agravada por essas substâncias, reacendeu um debate que já deveria estar muito mais avançado no Brasil. Este artigo analisa como o ecossistema digital transformou o uso de anabolizantes em espetáculo, o que os dados de mercado revelam sobre a dimensão do problema e por que a resposta do Estado ainda está muito aquém da escala da crise.

A Arquitetura do Espetáculo Hormonal

Entender por que o uso de anabolizantes migrou para as redes como conteúdo celebrado exige compreender a lógica que move a economia da atenção digital. Nesse ambiente, a transformação física acelerada é um produto de altíssima performance: gera engajamento, admira, provoca controvérsia e, sobretudo, constrói uma narrativa de conquista que ressoa com jovens que buscam referências de corpo, disciplina e sucesso.

Influenciadores que anunciam publicamente que estão iniciando um ciclo de hormônios, que detalham os produtos usados e que recebem aplicações diante das câmeras não estão apenas compartilhando uma escolha pessoal. Estão construindo um ritual de pertencimento que transforma uma prática de risco em evento social. A linguagem informal que orbita esse universo, com termos como tomar suco, ciclar e estar hormonizado, cumpre uma função precisa: reduzir a percepção de risco ao tornar familiar o que deveria soar grave. Quando uma injeção de substância controlada se torna o mote de um programa de entretenimento, o vocabulário médico que deveria acompanhá-la desaparece completamente do frame.

Os Números que o Entretenimento Não Mostra

A escala do problema fica clara nos dados de mercado. A comercialização legal de testosterona no Brasil cresceu mais de 700% em sete anos, com alta de 20% apenas entre 2024 e 2025. A testosterona possui indicação médica restrita a condições específicas, como reposição hormonal em pacientes com deficiência comprovada ou perda de massa muscular associada a doenças graves. O uso para fins estéticos ou de performance esportiva não tem respaldo científico de segurança, conforme afirmam as principais sociedades médicas brasileiras, e o Conselho Federal de Medicina proibiu sua prescrição para esses fins em 2023.

O crescimento da venda legal é apenas a ponta visível. Por baixo dela, opera um mercado clandestino vigoroso, com anúncios em redes sociais que comercializam hormônios sem receita, com entrega por todo o país. Somente em São Paulo, operações policiais apreenderam mais de 11 mil produtos irregulares em um único ano, incluindo testosterona falsificada e hormônio de crescimento, com pelo menos um preso por falsificação e venda clandestina. A fiscalização, porém, enfrenta uma barreira estrutural: páginas removidas voltam a aparecer rapidamente em novos endereços, e as penalidades ainda são desproporcionalmente pequenas diante dos lucros gerados.

A Responsabilidade que as Plataformas Recusam

Há uma responsabilidade específica das plataformas digitais nessa equação que raramente é nomeada com clareza. Conteúdos que mostram a aplicação de substâncias controladas como entretenimento, que glorificam ciclos de uso hormonal e que associam a transformação física acelerada a identidade e status social violam, em princípio, as políticas de saúde que as próprias plataformas afirmam ter. Na prática, o que se observa é que esses conteúdos circulam amplamente, acumulam milhões de visualizações e geram receita publicitária, enquanto as remoções ocorrem apenas quando a repercussão negativa já se instalou.

A questão não é cercear a liberdade de expressão, mas reconhecer que existe uma diferença substancial entre um adulto comentando escolhas pessoais e um criador de conteúdo com milhões de seguidores jovens apresentando o uso de anabolizantes como parte de uma rotina aspiracional. O impacto dessas narrativas sobre adolescentes e jovens adultos que ainda estão formando suas referências sobre corpo, saúde e risco é documentado pela literatura científica e não pode continuar sendo tratado como efeito colateral tolerável da liberdade criativa.

O Que Falta Para Mudar o Cenário

A morte de um jovem de 22 anos com 1,7 milhão de seguidores deveria ser suficiente para mobilizar uma resposta coordenada envolvendo vigilância sanitária, plataformas digitais, conselhos médicos e política educacional. O que se observa, porém, é um ciclo que se repete: comoção, reportagens, debates pontuais e retorno à normalidade.

Romper esse ciclo exige que a discussão sobre anabolizantes nas redes sociais seja tratada como um problema de saúde pública com causa sistêmica, e não como uma sucessão de casos individuais trágicos. Regulação, fiscalização com punições proporcionais e educação midiática para jovens são os três eixos que precisam avançar simultaneamente. Sem isso, o próximo espetáculo já está sendo gravado

Autor: Diego Velázquez

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