Conforme destaca Marcello José Abbud, empresário e especialista em soluções ambientais, a gestão de resíduos sólidos em ilhas e arquipélagos representa um dos cenários mais desafiadores da infraestrutura ambiental, combinando limitações logísticas severas com ecossistemas de alta fragilidade e valor ecológico.
O Brasil possui um litoral extenso com ilhas habitadas de diferentes portes, além de arquipélagos como Fernando de Noronha e Ilhabela, que concentram populações residentes, fluxos turísticos intensos e ecossistemas marinhos de relevância global. Portanto, conhecer as especificidades desse desafio é o primeiro passo para construir soluções que realmente funcionem nesses territórios únicos.
As especificidades do problema em territórios insulares
As ilhas e arquipélagos enfrentam um conjunto de restrições que tornam a gestão de resíduos substancialmente mais complexa do que nos territórios continentais. Isso porque a limitação de espaço físico inviabiliza a implantação de aterros sanitários convencionais, que demandam grandes extensões de terra e sistemas de monitoramento de longo prazo. Além disso, a dependência de transporte marítimo ou aéreo para o escoamento de resíduos ao continente eleva exponencialmente os custos logísticos e cria vulnerabilidades operacionais em períodos de mau tempo ou interrupção das rotas regulares de abastecimento e escoamento.
Conforme observa Marcello José Abbud, a fragilidade dos ecossistemas insulares amplifica os impactos do descarte inadequado de resíduos. Afinal, ilhas com ecossistemas de recifes de coral, manguezais e restingas são especialmente vulneráveis à contaminação por chorume, pela presença de plásticos e pelo aporte de nutrientes provenientes da decomposição de resíduos orgânicos sem tratamento. O que em um território continental seria um problema localizado torna-se, em uma ilha, uma ameaça sistêmica ao equilíbrio ambiental de todo o ecossistema.
Tecnologias e modelos adaptados à escala insular
A gestão de resíduos em ilhas exige soluções que combinem compacidade, baixa dependência de insumos externos, robustez operacional e mínimo impacto sobre o ambiente local. De fato, sistemas de compostagem de pequeno porte para resíduos orgânicos, biodigestores comunitários para geração de biogás e energia, e equipamentos de compactação de resíduos secos para redução do volume a ser transportado ao continente são alternativas que já demonstraram viabilidade em contextos insulares ao redor do mundo.

Na avaliação de Marcello José Abbud, a redução na origem é o princípio mais estratégico para a gestão de resíduos em ilhas. Políticas de restrição ao ingresso de embalagens descartáveis, sistemas de depósito e retorno para vasilhames e incentivos ao consumo de produtos a granel reduzem estruturalmente o volume de resíduos gerado, aliviando a pressão sobre sistemas de coleta e tratamento que operam com capacidade limitada.
O caso de Fernando de Noronha e as perspectivas para ilhas brasileiras
Fernando de Noronha é o exemplo mais emblemático dos desafios e das possibilidades da gestão de resíduos em territórios insulares brasileiros. O arquipélago recebe dezenas de milhares de turistas por ano em um território de pouco mais de 17 quilômetros quadrados, com ecossistemas marinhos protegidos por legislação federal e estadual. A gestão dos resíduos gerados por residentes e visitantes é um dos principais gargalos ambientais do arquipélago, com iniciativas em curso para ampliar a reciclagem, reduzir o volume de resíduos transportados para o continente e eliminar progressivamente os plásticos de uso único.
Segundo Marcello José Abbud, as experiências acumuladas em Fernando de Noronha e em outras ilhas brasileiras oferecem aprendizados valiosos para a estruturação de políticas específicas para territórios insulares no âmbito da Política Nacional de Resíduos Sólidos. A criação de marcos regulatórios e linhas de financiamento adaptados às especificidades geográficas e operacionais das ilhas habitadas é uma lacuna que precisa ser endereçada com prioridade para proteger ecossistemas de importância global e garantir qualidade de vida às populações que habitam esses territórios únicos.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez